sábado, 1 de dezembro de 2018

"Quero fim de ano, pés descalços na areia, a brisa do mar, fim de tarde tranquilo, música boa, sem relógio, despertador ou qualquer coisa que me mostre o tempo passando. Quero sair de noite olhar pro céu e ver estrelas, ter tempo pra ver como a lua é bela, observar pessoas, rir, chorar, pensar, viver, cantar, sentir. Preciso de um tempo, preciso me reencontrar em novos caminhos e preciso disso agora..." Caio Fernando Abreu

Dezembros...


Por Alessandra Leles Rocha


Dezembro se inicia hoje; mas, há alguns dias tenho observado as pessoas e percebido o nítido frisson que toma conta dos seres humanos nessa aproximação do fim do ano. É engraçado, porque diante de todas as tentativas humanas de se controlar o tempo e fazê-lo subserviente às suas vontades, as pessoas se rendem aos apelos da mais pura repetição. Ora, o que é o fim do ano senão mais um ciclo que se finda?
E todos nós sabemos que isso vai acontecer, porque essa contagem do tempo é uma criação humana. No entanto, cada vez que se renova esse movimento de resgate e transformação, os Dezembros se moldam diferentes. Como disse Heráclito de Éfeso 1, “não cruzarás o mesmo rio duas vezes, porque outras são as águas que correm nele”. O que chama atenção é como esse mesmo processo, ano a ano, é realmente capaz de desencadear ou intensificar uma série de diferentes e inovadoras sensações e sentimentos.
De repente, começo a pensar que Dezembro é a nossa primavera! Impactada pelos solavancos do inusitado, soterrada lentamente debaixo de uma ferrugem proveniente das agruras do cotidiano, a alma aguarda o tempo para renascer e revelar o esplendor das suas mudanças.
Então, esse é o tempo de se fazer um balanço da vida. Vitórias. Derrotas. Conquistas. Fracassos. Ilusões. Desilusões. ...um olhar mais intenso e sincero para tudo o que está além do espelho. Depois de uma longa jornada a casca está em farrapos e a verdade do que fomos e fizemos está desnuda.
Não, não há como fugir. Não há como mentir. Não há como se esconder. Por isso, Dezembros nos tornam frágeis; crianças em busca de colo e de afago. Os encantos do mundo, as luzinhas multicoloridas, os presentes, o corre-corre pelas cidades... de uma forma ou de outra nos revolvem os terrenos do espírito em busca do preenchimento de tantos vazios que estavam ocultos pela inabilidade de priorizar o essencial.
Mas, nem só de materialismo vive o ser humano. Nessa catarse de Dezembro há espaço para a fé; nosso lado mais íntimo e pessoal, o qual reside na força magnânima do divino. É o afago que não se vê não se explica; apenas, se sente. Mas, que dispõe de uma intensidade tão surpreendente que, não raras às vezes, traduz o intraduzível aos pobres mortais.
Por isso, geralmente, Dezembros nos tornam mais doces, mais dóceis, mais gente. Capazes de externar nossa capacidade humana de ser generoso, fraterno, altruísta..., visibilizando seres e coisas que nossa cegueira ocultou por tantas passagens dos ponteiros.  Afinal, enquanto chama viva, a fé precisa desse calor que compartilha o pão e a alma em todas as suas dimensões.
Ora, mas é preciso entender que Dezembros não são contrições que nos absolvem para retornar ao ponto dessa breve pausa. Dezembros precisam e devem ser o ponto alto de mudanças que sinalizem nossa evolução. E evoluir não é tarefa fácil e possível para um único Dezembro. Precisamos de muitos; mas, sobretudo, da vontade efetiva de fazer diferente, de ser diferente. E isso envolve diretamente o modo como você se relaciona com o material e o imaterial da vida, ou seja, o peso que você atribui ao TER e ao SER.  

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