sábado, 19 de novembro de 2016

Reflexões...


O que adianta?


Por Alessandra Leles Rocha


O ser humano já desbravou o universo. Já revolucionou a ciência da informação e da tecnologia. Já interferiu na genética. Já ampliou as fronteiras agrícolas. Já... Já... Mas o que adianta se ainda não aprendeu a respeitar a diversidade da sua raça? Concordem ou não há apenas uma raça, a humana. Que por sua vez espelha uma pluralidade que salta aos olhos e enche de emoção pela infinitude de habilidades e competências capaz de traduzir.
É por isso que em pleno século XXI se torna inadmissível repetir os velhos equívocos, bater nas mesmas teclas e regurgitar os discursos que tanto mal já causaram ao mundo. Nessa vastidão de seres humanos é claro que nem tudo são flores; há gente boa, gente ruim, gente compromissada, gente descompromissada, gente ignorante, gente educada,... Mas, que por graça da capacidade de pensar e refletir deve aprender a conviver em paz e harmonicamente.
Ao contrário do que muitas pessoas acreditam não é a uniformidade do pensamento e comportamento humanos que nos faz evoluir. É pesando os prós e os contras, colocando na balança os antagonismos que nossa abençoada razão amplia os seus horizontes. Tarefa difícil e que exige do aprendiz humano; mas, vale a pena. Descobrir que se pode chegar a um denominador comum, cada um cedendo na medida da compreensão e dos argumentos é sempre maravilhoso; afinal de contas, ninguém é dono e senhor da verdade.
Então, quando paramos para pensar aonde o mundo já chegou e percebemos sua insistência em refazer os mesmos ciclos inglórios, como se estes não nos tivessem deixado duras e amargas heranças, chega a pairar um desalento. O que adiantam a fome, a miséria, à destruição, o holocausto,... se não somos capazes de sermos melhores?  O que adiantam o poder, a glória, a riqueza,... se não somos capazes de coexistir em paz?
Infelizmente, para essa degeneração nociva que nos impede de enxergar a vida como prioridade absoluta, talvez, não tenhamos resposta. O tempo nos mostra quantas e quantas vezes agimos exatamente assim, alheios às dores do mundo, cruéis, insensíveis, tiranos. Sob um discurso de defesa dos direitos e interesses de todos; mas, quem seriam esses “todos”?
Distante do que acontece em outras esferas da vida na Terra, a humanidade de fato não prima pelo respeito, pela segurança, pelo bem-estar de seus semelhantes. Famílias negligenciam sua própria prole. Estados-nação negligenciam seus próprios cidadãos. Somos a representação de uma raça altamente individualista e que cada vez mais manifesta seu desprezo pela perpetuação da própria espécie. Sim, mata-se com uma facilidade absurda. A vida aparece no ranking das prioridades humanas como um bem vulgar.
E não venham pensar que estou sendo alarmista ou melancólica. Abram as mídias, leiam com atenção as notícias. Permitam-se respingar pela realidade que salta das palavras. O mundo, meus caros, está assim... desabando, lentamente. Tentando contemporizar os fatos, muitos atribuem o título de ‘bobagens’ a comportamentos que nada têm de inofensivos. Subverter a ordem, a lógica, o bom senso,... não são bobagens. Enquanto vivemos nesse planeta o EU não pode sobrepor ao NÓS. Precisamos respeitar os limites, as regras, para que seja possível coexistir. Somos contra a guerra do outro lado do mundo, sob a alegação do desrespeito as fronteiras, a soberania etc.; mas, debaixo do próprio nariz, não vemos mal algum em colocar o lixo na porta do vizinho, furar a fila do banco, dirigir embriagado etc. Como assim?!
De que lado estamos? Essa diminuta esfera que gira solta no universo e onde estamos todos vivendo é a casa que nos resta. Admitam ou não estamos regidos por um enorme efeito dominó; o que acontece aqui repercute lá e vice-versa. A revelia de nossa vontade as perdas e os ganhos de uns e outros impactam o nosso dia a dia. Nossa liberdade, nossa autonomia, nossa vontade, enfim... “Nossa”, o quê, cara pálida? Por de trás de tudo há sempre uma orientação maior, um interesse, uma ideologia. Nada é isento como querem fazer parecer.
No fundo estamos sempre contidos por muros, ainda que, invisíveis; basta prestar atenção para perceber. Muros que definem os que podem e os que não podem, os que pertencem e os que não pertencem, os que devem e os que não devem... Quem os define? Seres humanos. Sem nos darmos conta disso, nós mesmos estabelecemos os nossos muros e, no fim, eles não significam mais do que uma proteção, uma contenção, a nós mesmos. O que condenamos, criticamos, apontamos, rechaçamos em nossos semelhantes é, na verdade, o que pensamos sobre nós; mas, manifestar isso em relação ao outro parece mais fácil, mais cômodo.
Entretanto, quando abrimos precedente para esse comportamento de exclusão, de segregação, de intolerância, não resolvemos nosso desconforto. Aliás, o ataque está longe de ser a melhor defesa. Mais dia menos dia o agredido vai revidar, vai cobrar na mesma moeda; a história é rica em exemplos assim. Nossos ‘muros’ só nos tornam cada vez mais vulneráveis e apontam cada vez mais as nossas fragilidades existenciais, especialmente, em não sabermos resolver os nossos próprios dilemas.
Dois mil e dezesseis está próximo do fim, um momento oportuno, então, para pensar sobre tudo isso. Hora de parar de esperar que outros cumpram essa obrigação e assumir o próprio quinhão de responsabilidade, revendo valores, comportamentos, princípios. Se isso não puder nos proteger dos descaminhos que o mundo aponta, pelo menos que nos ajude a fortalecer o espírito para enfrentar as tormentas provocadas por quem não se dá ao trabalho de pensar. 

Discurso de Chaplin no filme O Grande Ditador.

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