quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Brasil...


Os dois lados da moeda 

 

Por Alessandra Leles Rocha 

 

Dia seguinte à aprovação, pelo Senado Federal, do impeachment de Dilma Rousseff, o burburinho certamente está longe de se findar.  Mesmo, porque, não bastasse o “arrastar de correntes” que representou todo esse processo; no final, durante a defesa quanto à votação ou não da pena de inabilitação para funções públicas, a Senadora Kátia Abreu (PMDB-TO) não querendo ofender; mas, já ofendendo aos milhões de brasileiros e brasileiras, colocou-se a defender bravamente a ex-presidente.

Segundo a Senadora, “A presidente já fez as contas de sua aposentadoria e deve se aposentar com cerca de R$5mil. Então, precisa continuar trabalhando para suprir as suas necessidades” e, ainda acrescentou que, após deixar a presidência, Dilma seria convidada para dar aulas ou prestar consultoria para parlamentares; mas, isso seria inviabilizado por uma eventual decisão de inabilitá-la. 

Enquanto isso, sem contar os dados não oficiais, o desemprego sobe a 11,6% e atinge 11,8 milhões de trabalhadores, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Sem contar, caros leitores, quantas profissões em nosso país não rendem salário mensal próximo a R$5 mil, como é o caso dos próprios professores. Quiséramos ter defensores tão aguerridos, não é mesmo? Infelizmente, de um jeito ou de outro permanecemos um país de contrastes. Querendo ser igual nas suas gravíssimas desigualdades. Ranqueando a vida entre os mais e os menos importantes, na decisão de quem vive com dignidade e outros que apenas sobrevivem.

A verdade é que a população brasileira foi lançada a um poço sem fundo a partir do esfacelamento da estabilidade econômica, decorrente de decisões totalmente equivocadas e incorretas, e agora para reverter essa situação caótica demandaremos um tempo bastante árduo para ser vencido. É, porque o cotidiano não espera e o ser humano precisa sobreviver, a não ser que haja, também, uma nova interpretação constitucional para o artigo 6º da Carta Magna. Sim, porque até ontem à tarde, a Constituição Federal estava acima de todos os outros ordenamentos jurídicos e o que nela estava escrito era o que deveria ser cumprido. Mas, de repente, não mais que de repente, disseram que não era bem assim.

Confesso que nesse instante ímpar da história nacional, tive pena de Fernando Collor de Mello; posto que, no seu impeachment não houve descumprimento constitucional e o que estava escrito foi regiamente cumprido. Mas, agora, com tantos pesos e medidas, abrindo precedentes assim, a flexibilização interpretativa da Constituição Federal chega ao ponto da possibilidade de fazer com que nossos direitos ganhem novas interpretações e passem a se esvair e minguar cada vez mais.

Como disse anteriormente, quiséramos ter defensores tão aguerridos! Mas, creio tenhamos que atravessar essa tempestade contando com a própria sorte. Já diz o provérbio que, “quando a farinha é pouca, o meu pirão primeiro”. A nossa urgência cidadã não é a mesma de nossos representantes; por isso, a morosidade nas decisões não lhes incomoda. Por esta razão, legislam e votam em causa própria, sem dor na consciência se a base da pirâmide social padece e está privada da sua dignidade.

Enquanto o Produto Interno Bruto (PIB), que corresponde à soma (em valores monetários) de todos os bens e serviços finais produzidos numa determinada região (cidade, estado ou país), durante um período determinado (mês, trimestre, ano, etc.), tem retração pelo sexto mês consecutivo, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), nossas possibilidades de ‘suprir as nossas necessidades’ estão cada vez mais e mais distantes. Afinal de contas, o Brasil está em recessão, ou seja, há uma retração geral na atividade econômica. Sem investimentos, não há produção, as vagas no mercado de trabalho formal desaparecem e o cidadão deixa de consumir. A própria agricultura, cujo Ministério esteve sob o comando da Senadora Kátia Abreu de 1º de janeiro de 2015 até abril de 2016, quando do afastamento da ex-presidente para os ritos do processo de impeachment, sofre hoje os impactos da economia e registra a maior queda, 2%.

Pensemos, então, a respeito de tudo isso e do nosso papel individual e coletivo, no nosso posicionamento social. Agora, talvez, sejamos capazes de perceber que o paternalismo deseduca e desprepara para as adversidades, ofusca os olhos, inebria as mentes, cria esperanças em bolhas de sabão. É como acontece em famílias muito grandes; no fim, cada um acaba tendo que dar um jeito de cuidar de si. E se a gente, “põe reparo”, como disse José Saramago, consegue enxergar que além dos próprios muros, o mundo todo também vive a sina de pedir socorro. Milhões de desempregados aqui, milhões de refugiados lá; a indignidade em suas faces mais sombrias e degradantes grita e se espalha por canta canto, só não encontra ninguém para subir na tribuna e fazer valer o que está escrito na Declaração Universal dos Direitos Humanos. 

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