sexta-feira, 18 de março de 2016

Qual é o preço da passionalidade que paira no ar?


Qual é o preço da passionalidade que paira no ar? 

Por Alessandra Leles Rocha 

Nenhuma novidade, quando o assunto é dividir a sociedade entre dois blocos acirrados de discussão; especialmente, política. A história da humanidade está repleta de episódios assim, cujo desfecho não culminou em nada que pudesse refletir em gestos altruístas e fraternos. Basta vermos o que acontece há mais de cinco anos na Síria e suas terríveis repercussões, inclusive migratórias, pelo mundo.

Mas, para quem pensa que essa conversa não nos diz respeito engana-se; afinal, a realidade que nos rodeia também está impregnada por esses valores de divisão social. O curioso nesse fenômeno é perceber que os prejuízos são maciços ao conjunto da sociedade e não somente aos contrários a uma dada ideologia ou regime de governança. Nessas situações limítrofes todos estão no mesmo barco, degustando o mesmo saco de sal; mas, há quem se deixe conduzir pelas paixões mundanas, pelas idolatrias desmedidas, pelo arroubo da insensatez individualista, por uma ‘irresistível’ passionalidade.

No entanto, o que deveria estar em pauta são os fatos e tudo o que deles advém para nos causar tamanho desconforto social. Se tudo estivesse bem, sobretudo a economia; certamente, a indignação da sociedade não passaria de uma nuvem a se esvair em céu azul e não teríamos chegado ao ponto de materializá-la em panelaços, buzinaços, apitaços e grandes manifestações pelas ruas do Brasil.

Com mais de quinhentos anos de história regada pela presença constante da corrupção no seio social, engana-se quem atribui só aos desvios de comportamento ético e moral o resultado dessa efervescência; posto que, até então, apesar do descontentamento com tais práticas, o povo não se inflamava tão robustamente em prol de combatê-las.  Mas, diante da carestia, da inflação, dos altos índices de desemprego, da vertiginosa recessão que nos empurra a chamada Depressão Econômica, uma parcela significativa da população não viu senão a necessidade de fazer valer a sua cidadania, os seus direitos, a partir da compreensão dos danos advindos tanto da cronicidade da corrupção quanto da crise econômica.

Se vivemos num Estado Democrático de Direito, então, a sociedade há de cobrar as responsabilidades de seus representantes nas esferas do poder sim, ainda que os mesmos não tenham sido eleitos na totalidade dos votos válidos. Eles não se tornam governantes apenas de seus eleitores; mas, de todos os entes federativos, conforme reza a Constituição Federal. Portanto, todos os brasileiros podem democraticamente fiscalizar e exigir o cumprimento responsável da administração pública, de modo a resguardar a manutenção de seus direitos previstos em lei.  

Também é importante salientar que não há como dissociar a gestão dos gestores, como querem alguns. A existência de representantes escolhidos através do voto popular acontece para prover condições de administrar adequadamente os recursos e as demandas manifestas pela sociedade. Então, o nível de responsabilidade investido a esses gestores é altíssimo, resultando na possibilidade de cobrança da população na mesma intensidade, queiram eles ou não.

Contudo, como já aconteceu tantas vezes na história do mundo, a tendência em desqualificar, ou distorcer, ou menosprezar a voz da população foi a estratégia utilizada pelos gestores públicos. Num movimento desfavorável aos preceitos democráticos, além do não reconhecimento às reinvindicações populares, o gesto impactou ainda mais o cenário econômico do país, aprofundando-se a perda de credibilidade pelos mercados internacionais; bem como, retardando a possibilidade de uma eventual recuperação almejada pelo cidadão comum.

Os atores do cenário político nacional em nome de se manter no poder preferem abster-se de suas responsabilidades, deixando a cargo da população o arrastar de correntes desse martírio; o que pode significar fazê-la pagar ainda mais caro, pelos descaminhos por eles instituídos. Assim, como em um cabo de guerra, as forças bi polarizadas começam a atuar; mas, ao contrário de mostrarem sua capacidade de transformação positiva, até o momento, o que se vê é o país padecendo inerte a ausência de soluções práticas capazes de fazê-lo sair dessa situação.

É preciso lembrar que o radicalismo nunca se mostrou a melhor solução em nenhuma situação.  Ser irredutível, inflexível, arrogante como forma de demonstrar poder não faz de ninguém um grande líder; sobretudo, quando os problemas que emergem precisam de técnica e racionalidade para ser efetivamente resolvidos. O mundo já sabe disso e dá demonstrações de mudança, como as que têm ocorrido em vários países sul-americanos, por exemplo. Há um movimento claro em busca de uma ‘Primavera’, de uma transformação que rompa com os velhos paradigmas, os quais nunca foram fortes o bastante para sustentar nenhum ideal de justiça e dignidade sociais.

Portanto, paremos de nos sensibilizar com as mazelas dos outros, manifestando opiniões rasas aqui e ali, quando devemos olhar seriamente para o nosso próprio ‘umbigo’. Do fim da Guerra Fria até agora muita coisa aconteceu; os relógios e a sociedade não ficaram parados discutindo se os valores eram de Direita ou de Esquerda, ou se os Comunistas comiam ou não criancinhas. Desafios ambientais, biológicos e sociais têm nos instigado a ampliar o foco de visão, a parar de se vitimizar entre ‘eles e nós’; pois, o único planeta que temos no momento para habitar está à beira de um colapso e cada um precisa cuidar do seu espaço.

Como disse William Shakespeare, “O mal da grandeza é quando ela separa a consciência do poder”. Então, Brasil, acorda! Chega de ‘mi-mi-mi’ e pega a responsabilidade pelas mãos; amadurece no alto de seus quinhentos anos de história e faz alguma coisa de bom para si mesmo. Respeito não se constrói da boca para fora; nem tampouco, por conta de se sentar nessa ou naquela cadeira. Aproveita para refletir sobre qual é o preço da passionalidade que paira no ar.

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