sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Falta de decoro. Será?!


Falta de decoro. Será?!
 
Por Alessandra Leles Rocha
 
Especialmente no meio político, não se escuta outra coisa senão a expressão “falta de decoro”. A toda hora, em todo lugar, a tal ausência de decência, de honestidade, de pudor, e porque não dizer vergonha, vai se institucionalizando como uma prática peculiar entre os mortais. Não está entendendo? Vou explicar.
É que se falta decoro, certamente é porque as pessoas não andam muito preocupadas em se guiar por valores éticos e morais adequados ao bom convívio social. Suas ações não se preocupam com os desdobramentos coletivos, se irão prejudicar pouco ou em demasia os seus semelhantes. Sob uma consciência de entes especiais, predeterminados a ser e a estar no mundo sob prerrogativas de notoriedade e poder inimagináveis, seu pensamento é como se a vida fosse um eterno jogo, onde não cabe nenhum resquício de pudor.
Mas é justamente nesse ponto, que eu fico intrigada. Observando com especial atenção ao trivialismo do mundo, não sinto que a falta de decoro signifique uma eliminação plena e irrestrita do pudor; mas, se o que aconteceu de fato, foi uma estranha inversão de valores na sociedade. Sob a lógica do bom senso e de uma relação social harmônica e equilibrada seria de se pensar que o pudor, ou a vergonha, ou o decoro, deveriam orientar e agir como freio e contrapeso o ser humano. Assim, ele pulsaria mais forte nos momentos em que as atitudes se mostrassem inevitavelmente atos terríveis e cujos desdobramentos só pudessem fomentar o repúdio e a indignação coletivos. Contudo, subvertendo-se a lógica, perder o decoro nessas ocasiões parece normalizado e sem poder suficiente de constrangimento, numa ruptura amoral.   
Por outro lado, no considerado justo bom e belo da vida é que o pudor tem aflorado seu ímpeto. Vagando entre o universo consciente e inconsciente do ser, esse sentimento de decoro inibe a naturalidade da existência humana e restringe costumeira, ou tradicionalmente, certos comportamentos e pensamentos com o máximo do escrúpulo. Nessa tal ‘cartilha’ imaterial condena-se o amor, o prazer, as escolhas,... ou seja, a liberdade de ser segundo a própria cabeça. Os olhos parecem cegamente revestidos de uma imoralidade sufocante, fazendo com que o nariz se contorça em constante reprovação de tudo e de todos.
Bons modos de braços dados com a decência e as aparências, ainda no século XXI? Sim. Tabus de outros séculos resistem bravamente no mundo novo da tecnologia; senão, como justificaríamos o cyberbullying, por exemplo? O pudor contemporâneo continua não suportando a realidade da vida. O beijo gay na teledramaturgia ainda representa um imenso desconforto; assim como, os casamentos e a adoção por casais homo afetivos, a coexistência sob o prisma da diversidade social, os namorados (a) levarem seus (a) parceiros (a) para dormir na casa dos pais, enfim...   
Mesmo que mascarado, ou maquiado, o decoro continua a reafirmar seus estereótipos na sociedade, dentro de questões tantas vezes de foro íntimo e pessoal, as quais não teriam razão de se coletivizar dessa forma. E o que é pior, em uma ausência plena de argumentos consistentes e, até certo modo, passível de alguma aceitação. Não, esse pudor não se vale do pensamento próprio e legítimo de cada indivíduo; mas, do que “os outros vão pensar”.
Por outro lado, a falta dele ‘deita e rola’ aonde não deveria. Falta o decoro no combate à corrupção em todas as suas instâncias e formas, à violência (contra todas as socialmente denominadas minorias), à desigualdade do empoderamento de gênero, ao esfacelamento e descrédito da Educação no país, ao cumprimento destorcido da representação social nos cargos públicos,... Ninguém se preocupa de onde veio à riqueza e a ostentação alheia, quando quer se beneficiar e ‘tirar uma casquinha’; mas, se preocupa com a simplicidade da vestimenta do outro no dia a dia. Ninguém se preocupa com a verborragia deselegante na era cibernética; mas, destila o veneno do preconceito incontrolável a quem exibe um mínimo de cultura.  
Então, minha gente, não falta decoro. Falta saber emprega-lo onde realmente se deve. Falta recuperar a noção dos valores éticos e morais, do que é bom e do que é ruim, do que é motivo para se envergonhar ou não. Longe das desculpas rotas da falta de tempo, da fugacidade contemporânea, de que isso ou aquilo está ultrapassado. Não, não. Valores e princípios não são artigos que saem de moda; ou se têm ou não têm. Simples assim.
O mais importante nesse tipo de reflexão é ponderar justamente a dimensão do impacto que essa situação toda provoca sobre o progresso e o desenvolvimento da sociedade como um todo; sobretudo, em relação ao tipo de linguagem construída e apresentada mundo afora. O quanto essa inversão fomenta a desigualdade, as linhas divisórias entre os elementos e os segmentos sociais, pairando no ar, inclusive, um índice de importância entre os seres humanos; como se a vida de uns pudesse ser mais ou menos do que a de outros. É assim que nascem os radicalismos, as intolerâncias, a hostilidade de que tanto se fala por aí. Não preciso nem lembrar o que Rui Barbosa, grande jurisconsulto brasileiro, já falava lá no século passado: De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto” 1. Por isso, pare por um instante e pense: no fundo, o decoro não parte de fora para dentro, mas de dentro para fora. É essa a verdadeira transformação para qualquer ser humano, constituinte fundamental de uma sociedade, que almeja mais para si, para os outros e para o mundo.   




1 Senado Federal, RJ. Obras Completas, Rui Barbosa. v. 41, t. 3, 1914, p. 86.


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