quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Crônica do dia!

Sob a sombra da independência

Por Alessandra Leles Rocha

Nada como o dia cívico da independência do Brasil para nos fazer olhar com mais atenção para o que de fato nos deveria fazer sentir mais de perto o balanço perfeito das asas da independência. Palavra de peso esta! Coloca-nos na posição de trabalhar com equilíbrio e bom senso a condição de ser autossuficiente tanto do ponto de vista individual quanto coletivo; nada de arrogante ou prepotente, mas distante da subserviência cega e ignorante.
Na vida são muitas as oportunidades que temos para trazê-la mais próximo de nós. Da formação adquirida na chamada escola da vida ao letramento acadêmico do ensino regular, que nos proporciona descortinar as maravilhas do universo da cultura e do mundo, que nos outorga a condição de cidadãos alfabetizados e capazes de desbravar a escrita de que “o céu é o limite”. Independentes para ler e registrar as palavras, as ideias, as emoções, os sentimentos, a vida.
Desse primeiro passo, tantos outros nos convidam a reencontrá-la mais uma vez. Independência para fazer escolhas, para traçar planos, para construir, realizar, quem sabe até ser feliz. Todos os dias da nossa existência são em busca de senti-la pulsando mais forte dentro da própria alma.
Pena, que em meio à efervescência da contemporaneidade, dos avanços e das conquistas de uma era de franco domínio tecnológico e científico, membros da humanidade ainda se comprazem na opção de ser cativo a dependência de falsos valores, de modos e comportamentos desnecessários e condenáveis; cativos ao germe da barbárie que habita dentro do ser humano.
Alienados ao que se passa no mundo; soberanos monarcas de uma razão dependente ao limitado raio de visão de que dispõem. Incapazes de perceber que a aflição do mundo é a mesma que lhes bate à porta; não são imunes às mazelas, as tragédias, ao sopro da morte que chega sem avisar. A sua luta se calca em causas perdidas, em motivos torpes; porque estão dependentemente acorrentados as ilusões do mundo que exalam pelo ar: poder, dinheiro, status...
Cada dia mais a sociedade se vê dependente de mais regras, normas, exigências para não sucumbir ao caos. Os que hasteiam a bandeira da criminalidade e da violência, presos aos ditames infames de uma loucura sustentada na síndrome dos pequenos poderes 1. Os que padecem aos infortúnios sociais, aos reflexos da insanidade alheia, presos ao clamor de soluções, de ações verdadeiramente contundentes. Dois lados de uma mesma moeda presos ao choque de interesses e necessidades.
Enquanto alguns se valem da independência consciente e da aproximação social que a tecnologia vem promovendo através da ampliação das redes sociais como mecanismo salutar de criação de fóruns e grupos de debate para o alcance de melhorias na realidade cotidiana; outros, simplesmente, se prendem a essas tecnologias para promover a discórdia e a intolerância, numa explosão de fúria indescritível. A sociedade do século XXI revive a dependência das arenas e das praças de guerra para canalizar a sua própria insatisfação com outros elementos, que são verdadeiramente motivos para afligi-lo e atormentá-lo; mas, os quais ele não se sente independente o bastante para se posicionar e confrontar.
O Brasil que hoje desfruta de um novo nível de independência no cenário mundial, ainda nos mantém dependentes em muitos aspectos. Dependentes de uma servidão tributária atroz, da cronicidade de uma estrutura carcomida e obsoleta de prestação de serviços essenciais – saúde, educação, transporte, segurança -, do malabarismo criativo para sobreviver ao desemprego, aos baixos salários, as dificuldades de inserção no mercado de trabalho convencional e para complementar a renda salarial, do movimento frenético e instável da economia em todo o planeta, dos resultados dos desastres naturais avassaladores,... da fé, esperança e perseverança em um dia que se traduza verdadeiramente independente a todos os cidadãos.
A independência exige coragem, ousadia, posicionamento. O que chega aos ouvidos e a mente precisa ser depurado, analisado, de modo que cada um encontre a sua própria síntese. Independência não exclui; ao contrário, ela aproxima os indivíduos que possuem os mesmos pontos de convergência. E como o ser humano não é uma ilha, ainda que no contexto da sua individualidade ele se compreenda independente, se não houver a emanação coletiva da independência, ela então não estará completa.  Mas ser independente é buscar, antes de tudo, conduzir o ser humano ao mínimo possível de amarras psicossociais; afinal, sabemos que a independência total e irrestrita é mero idealismo. Aqui e ali sempre haverá uma aresta de dependência! A independência tem que existir amparada pela paz e todos os demais sentimentos de conforto e bem-estar; há de se sentir leve, inteiro, pronto para viver os dias e seus inevitáveis desafios.
 


  

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