sexta-feira, 14 de outubro de 2016

15 de Outubro - Reflexões sobre a Docência

Cadernos... Livros... Outubros...

Por Alessandra Leles Rocha


Aquilo que está escrito no coração não necessita de agendas, porque a gente não esquece. O que a memória ama fica eterno.
Rubem Alves


Concordo plenamente com Rubem Alves. Na vida, quando precisamos de uma data especial no calendário, ou de um bilhete na agenda, para nos darmos conta da importância disso ou daquilo, é sinal que algo não está nada bom.
Foi por isso que escolhi o educador Rubem Alves para iniciar a minha reflexão sobre o Dia do Professor. Para despertar em cada leitor a consciência sobre a ‘inconsciência’ negligente que temos dedicado a esse profissional.
Quando olhamos para o mundo e nos deparamos com a sua dinâmica de obrigações e de afazeres, certamente vamos manifestando uma percepção clara sobre o que seríamos capazes de realizar e o que não seríamos; movidos por uma série de argumentos práticos e teóricos presentes em nossa identidade social.
De fato, ninguém é capaz de jogar nas onze, de ser um sucesso de polivalência no mundo. E é por essa razão, que vez por outra damos o braço a torcer e reconhecemos a nossa carência de habilidade, de competência e até, certa, vontade para fazer o que outros tantos fazem.
No entanto, quando chega à vez de se imaginar professor, cada vez mais as pessoas refutam de imediato a ideia. Com olhares de desprezo e muitos ‘Deus, me livre!’ dispensados sem nenhum pudor ou remorso, é assim que o exercício da docência se transforma em blasfêmia nos dias de hoje.
E antes de lançar a culpa sobre os ombros do Sistema, façamos nossa mea culpa. Sim, cada cidadão brasileiro tem seu quinhão de responsabilidade sobre o esfacelamento da Educação brasileira e, consequentemente, da profissão docente. O fato de pagarmos impostos que originam recursos para investimento na máquina educacional, infelizmente, não é o bastante e nossa responsabilidade não é nem de longe aplacada.
Vejamos, por exemplo, que o mesmo se faz em relação à saúde, à segurança, ao transporte; mas, quando nos deparamos com os descaminhos pelos quais eles transitam, a grande maioria da população manifesta-se em ‘prosa e verso’, valendo-se de todas as mídias de repercussão nacional e internacional. Ninguém espera pelo Dia da Saúde, ou da Segurança, ou do Transporte para dar publicidade e, porque não dizer visibilidade, à sua indignação. Mas, quando o assunto é a Educação...
Embora tenhamos plena consciência de que para ser professor nesse país, o docente precisa ter curso superior, e até pós-graduação em alguns casos, não nos causa estranheza e nem tampouco constrangimento, o fato dele receber um salário médio que equivale a 54,5% do que recebem outros profissionais também com curso superior. Por essa razão, não é difícil imaginar que ele precise duplicar, ou até triplicar, a jornada de trabalho para receber um salário suficiente para a sua sobrevivência e, em muitos casos, a de sua família.
Quem de nós, então, se preocupa com a qualidade de vida do professor? Ao contrário disso, não carecem comentários sobre a impaciência, o destempero, o despreparo etc.etc.etc. desse profissional. Como se suas condições de trabalho fossem plenamente satisfatórias e ele não passasse de um insatisfeito com a vida, um frustrado sem razão de ser, um desocupado que adora fazer greve para ficar sem trabalhar.
Então, eu pergunto a você: sem condições dignas, sem salário justo, você sentiria prazer em sair de casa para trabalhar? Você enxergaria razões para continuar labutando diante de tantas mazelas na sua profissão? Nessas horas, antes de emitir alguma opinião, reflita e se coloque na posição do professor. Além do pó de giz, quantos saem de casa cedo, enfrentam trânsito, violência e toda sorte de desgastes para exercer a docência, enquanto se esquecem de si mesmos, de seus sonhos, de suas necessidades, de suas famílias...
Infelizmente, nosso olhar sobre o universo escolar não é dos melhores. Somos rasos, superficiais, imediatistas e inquisidores. Queremos a escola de portas abertas, funcionando, como mero ‘depósito’ de crianças e jovens, enquanto cumprimos nossa própria rotina laboral. Na maioria das vezes, muito mais preocupados se vai ter ou não merenda, do que propriamente se há professores ou não lecionando.
É, queremos o cumprimento do livro didático ao final do ano, a aprovação,... Mas, não nos atemos ao disparate de um currículo obsoleto e pouco atraente, a ausência de laboratórios para apresentar os conteúdos de uma maneira mais conectada a realidade do aluno, a existência de disciplinas que poderiam intermediar e facilitar a absorção de outras já oferecidas, enfim... Quantas vezes cobramos a aplicação de recursos para a Educação e não sabemos quando e de que forma eles irão ser aplicados; bem como, se de fato o atual modelo de gestão ficaria ou não melhor do que está? Nós, cidadãos brasileiros, nos abstemos de colocar as mãos na massa e nos posicionamos no conforto da crítica improdutiva, que na verdade não constrói nada.
Está aí uma boa parte da explicação para não enxergamos a existência do professor. Nós temos o invisibilizado, do modo mais cruel e perverso, como se ele fosse menos cidadão do que nós. Como se ele não merecesse respeito e nem dignidade na sua existência. Às vezes, até com a arrogância, de culpabilizá-lo de todas as demandas educacionais do país.
Então, sem essa, por favor, de que a docência é um ‘sacerdócio’; como se isso fosse o bastante para nos eximir de todas as injustiças, todas as carências, todos os absurdos, todo o nosso desrespeitoso silêncio em favor das reivindicações dos professores.  O que adianta nos lembrarmos do professor em um dia de outubro e nos esquecermos dele em todos os outros, em todos os anos? Pecamos por falta de ação; mas, sobretudo, por omissão. Não nos esqueçamos de que tudo passa pela Educação, pelo trabalho incessante e dedicado do professor. 

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