domingo, 18 de setembro de 2016

Identidade, Cidadania... Só detalhes?

Identidade, Cidadania... Só detalhes?

Por Alessandra Leles Rocha

Ao contrário do que muitas pessoas pensam, detalhes são muito importantes, muito significativos. Detalhes diferenciam, enaltecem características e fazem distinção entre outros elementos. Pois bem, foi me atendo a um ‘detalhe’ durante as cerimônias de abertura e encerramento dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos que trago a minha reflexão.
Por mais pensado e repensado, em termos de detalhes e organização dessas solenidades, uma coisa aqui e outra ali pode passar despercebida; mas, quando o assunto trata da nossa identidade nacional, aí considero que não é possível banalizar.
Nenhum país do mundo aceita que o seu hino seja confundido com outro durante a execução ou, seja apresentado de forma fragmentada ou reduzida. Mas, nós brasileiros aceitamos; aceitamos que nosso hino fosse apresentado pela metade, por conta de razões de cronometragem do tempo do evento, imagino. Sim, nosso hino, talvez, seja maior do que de outros países; mas, é o nosso hino. Parte integrante da nossa distinção mundo afora.
A questão é que ao consideramos que a nossa identidade nacional não é tão importante, estamos abdicando também da consciência da nossa cidadania. Se alguém disser que basta vestir verde e amarelo que o ‘problema’ está resolvido, devo alertar que os australianos também fazem uso das mesmas cores.
Sendo assim, segundo Kathryn Woodward (2013) 1,
Precisamos de conceitualizações. Para compreendermos como a identidade funciona, precisamos conceitualizá-la e dividia-la em suas diferentes dimensões.
 Com frequência, a identidade envolve reivindicações essencialistas sobre quem pertence e quem não pertence a um determinado grupo identitário, nas quais a identidade é vista como fixa e imutável.
[...] A identidade está vinculada também a condições sociais e materiais.
[...] A marcação simbólica é o meio pelo qual damos sentido a práticas e a relações sociais, definindo, por exemplo, quem é excluído e quem é incluído. É por meio da diferenciação social que essas classificações da diferença são “vividas” nas relações sociais.
[...] As identidades não são unificadas. Pode haver contradições no seu interior que têm que ser negociadas.
Precisamos, ainda, explicar por que as pessoas assumem suas posições de identidade e se identificam com elas. Por que as pessoas investem nas posições que os discursos da identidade lhes oferecem? O nível psíquico também deve fazer parte da explicação; trata-se de uma dimensão que, juntamente com a simbólica e a social, é necessária para uma completa conceitualização da identidade. Todos esses elementos contribuem para explicar como as identidades são formadas e mantidas. (p.13-15).

Nosso senso identitário é tão frágil que nós, brasileiros, não nos importamos que os outros percebam que não temos apreço por nossa cidadania. Cidadania, para quem não tem a dimensão do significado, é o direito de desfrutar os direitos e deveres civis e políticos dentro de um Estado. Votar é só um exemplo.
A cidadania começa no fato de você não permitir que ninguém desrespeite o seu país, as suas tradições, a sua cultura, a sua língua. E não falo de um eventual desrespeito por parte de outras nações; mas, dos próprios brasileiros. É dentro de nossas próprias fronteiras que guardamos e zelamos por nossa identidade nacional, ou seja, pelo o que já foi pelo que é e pelo o que será o nosso país.
No entanto, cada dia que passa a nossa relação identitária e cidadã parece se esgarçar. Longe de repassar a nossa história, os nossos elementos identitários de geração a geração; temos mais e mais estereotipado essa consciência através de símbolos midiáticos positivos ou negativos. Antes éramos o país do futebol de Pelé (agora mais recentemente, de Neymar). A continentalidade do Brasil se restringia aos apelos turísticos do Rio de Janeiro e outras poucas capitais, dada à ênfase na tropicalidade e nas belas praias. Ou no viés negativo: a violência, a favelização, o turismo sexual, a permissividade em todos os níveis. Enfim...
Apesar de todos os pesares, o brasileiro não se sente incomodado, ou constrangido diante disso. Digam o que quiserem e o brasileiro permanece como se ninguém estivesse manifestando sobre algo que lhe diz respeito diretamente. Quantas vezes o brasileiro parte para briga por motivos torpes e quando o assunto é realmente sério ele se acomoda?
Cidadania, identidade nacional tem tudo a ver com respeito, com dignidade, com consciência. Em tempos que se vive sob o calor passional emanado das disputas políticas, chego a pensar se de fato o povo brasileiro almeja por mudanças. A dificuldade de estabelecer, por exemplo, correlação entre a crise econômica que aflige seriamente Municípios, Estados e a União, oriunda de práxis condenáveis e absurdas, de uma imprevisibilidade sem precedentes, e a possibilidade de investimentos nas áreas essenciais, ainda leva muitas pessoas a crer nas mesmas promessas eleitoreiras de outrora; como se o velho slogan – “Ele rouba, mas faz” - ainda pudesse resistir. Então, que mudança querem?
Se fôssemos cidadãos conscientes da nossa cidadania, acompanhando de perto os caminhos dos investimentos oriundos de uma das maiores cargas tributárias do mundo, cobrando firmemente a aplicação desses recursos em favor da população; certamente, a situação seria outra. Mesmo diante da inconsistência educacional, que sabemos existir no país; pois, valores éticos e morais não se aprendem só na escola. Eles são aprendidos e apreendidos no ambiente familiar e nas raízes atemporais da cidadania.
Mas, pensando bem, só fomos às ruas depois que o fundo do poço acenou. E muitos foram sem muita convicção, sem muita consciência do significado de estar ali, sem um denominador comum de reivindicações. Aliás, nossa gente quando se põe a exercer a cidadania o faz sempre em conjunturas segmentadas, dentro de identidades específicas, particularizando as demandas como se elas não fossem, na verdade, do interesse de todos; o que é uma pena. Afinal, ao que me consta somos todos brasileiros.
Desse modo, permitimos nossa fragilização, nossa ridicularização; a partir do momento em que tornamo-nos vetores que se anulam. Vivemos em um país chamado Brasil, nos denominamos brasileiros; mas, de fato e de direito não parece que nos reconhecemos nessa identidade, nessa cidadania. Passada a euforia ufanista provocada pelos grandes eventos, e aí? Já disse Roberto Carlos, “Detalhes tão pequenos de nós dois/ São coisas muito grandes pra esquecer / E a toda hora vão estar presentes / Você vai ver” 2. Então, acorda gigante e pensa sobre isso!




1 WOODWARD, K. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. In: SILVA, J. T. da. (Org.). Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. 13 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013. p.7-72.
2 Detalhes - https://www.letras.mus.br/roberto-carlos/6971/

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