sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Para uma boa reflexão!!!

Por detrás das lentes e holofotes...

 Por Alessandra Leles Rocha


 
Doenças, guerras, miséria, intolerância,... o mundo em escombros bem diante do nariz.  Então, será mesmo de bom tom sair por aí enaltecendo a futilidade de detalhes, especialmente materiais, da vida alheia? Ricos e famosos têm, como quaisquer outros cidadãos, o direito de viver a vida segundo suas próprias escolhas e isso, não me parece notícia relevante para os dias de hoje.
De vez em quando tenho a felicidade de me deparar com o lado bacana do jornalismo, destacando desse universo de puro glamour ações de extremo altruísmo e sensibilidade, que tem por finalidade, única e exclusivamente, promover um mundo melhor. Mas, isso só de vez em quando, porque na maioria do tempo são os ‘fuxicos da Candinha’ que tomam o espaço virtual e real da mídia; sob a alegação, de que esse tipo de matéria ‘rende’. Mas, será?
Papel de todos e, sobremaneira, dos públicos e notáveis é contribuir na construção de uma sociedade mais educada em todos os parâmetros. A exposição gerada na mídia traz consigo o peso para os indivíduos de se tornarem formadores de opinião e isso recai tanto sobre o bem quanto o mal. Em um país, onde famosos se transformam num piscar de olhos em ídolos, a questão beira um limiar bastante perigoso, pois nem sempre se escolhem pessoas cujo valor moral e ético é canalizado para bons exemplos. Longe de errar na afirmação, a nossa idolatria se baseia praticamente na visibilidade ostensiva do outro e pronto; daí se considerando as ideias de sucesso, de poder, de luxo, de riqueza, como se viessem à custa de sorte ou milagre divino, sem nenhum esforço ou  sacrifício.
 É por essas e por outras, que legiões de jovens são atraídos pelos excessivos apelos produzidos pela mídia, a perseguirem os caminhos dos notórios do momento. Investem o que têm e o que não têm para garimpar os seus ‘quinze minutos de fama’. Dedicam-se arriscadamente aos tratamentos de beleza para tornarem-se parecidos (a) com este (a) ou aquele (a) famoso (a). Só compram roupas, acessórios e produtos de grifes. Frequentam salões de cabeleireiro e locais badalados. Tentam contato com as emissoras de TV para participarem de programas. Enfim, perdem a sua identidade pela ilusão de uma identidade que não lhes pertence, como se ‘a galinha do vizinho’ fosse mais gorda do que a sua.
Mas, não é. De perto, cada um carrega um bocado de tristezas, de perdas, de mágoas, de decepções cotidianamente, cujo dinheiro, ou a fama, ou os holofotes não conseguem retirar do fundo da alma. Quantos não são os notáveis que perderam a vida ou estão em constante tratamento de reabilitação para se livrar dos vícios e compulsões antes que seja tarde demais? A visibilidade em excesso tem um peso incalculável e nem todos estão verdadeiramente aptos a suportá-lo com equilíbrio e harmonia.
É bobagem acreditar que determinadas notícias são recebidas com entusiasmo pelas milhões de pessoas no mundo. Justamente porque elas não são direcionadas a um segmento específico, o qual circulam indivíduos na mesma situação, é que elas acabam reforçando sentimentos ruins, inclusive de hostilidade, de inveja, estabelecendo fronteiras sociais mais e mais demarcadas pela desigualdade; já que, ninguém é ingênuo o bastante para acreditar que a mobilidade social é um privilégio de todos, basta querer e crer. Diante dos milhões de refugiados que se espalham mundo afora ou daqueles que sobrevivem com apenas um salário mínimo no Brasil, ostentar o preço da bolsa da fulana, ou o vestido da beltrana, parece-me de um prazer morbidamente deselegante.
Já estamos na segunda década do século XXI, assistindo a horrores sociais cada vez mais brutais para nos abstermos de uma consciência crítico-reflexiva. Palavras ferem. Imagens ferem. Isso não quer dizer que se há de suprimir a poesia, o belo, o agradável da vida; apenas, de que é preciso delicadeza e bom senso ao trata-las publicamente, para não cairmos nas armadilhas de um mundo ‘cor-de-rosa’, fútil e descompromissado com a realidade. O que não podemos nos esquecer é de que a comunicação parte do compromisso fundamental em comunicar com verdade e leveza, aquilo que é tantas vezes difícil, mas necessário.
Então, que o senso altruísta que paira sobre as palavras e as informações se eleve ao nível de buscar cada vez mais um sentido de significância edificadora para a sociedade. Somente a partir delas é que se podem estabelecer as escolhas, os caminhos, capazes de conduzir-nos a realização de sonhos e projetos relevantes. Precisamos ir ao cerne das questões, debulharmos com avidez aquilo que interfere com relevância no nosso cotidiano, apesar do trabalho e da vontade que isso impera sobre nós. Dessa forma, talvez, conseguiremos seguir algum dia o conselho da estilista francesa Coco Chanel: “Não é a aparência, é a essência. Não é o dinheiro, é a educação. Não é a roupa, é a classe”; pois como disse um outro francês, Antoine de Saint-Exupéry, " Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos".


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