sábado, 26 de maio de 2012

Reflexões para o fim de semana!!!


Distantes da “Perfeição”

Por Alessandra Leles Rocha

Não me canso de pensar, o que adianta todo o raciocínio lógico recebido pela humanidade se ela não sabe exatamente o que fazer com o presente! Ora, ora, o péssimo hábito de agir por impulso, de não pesar os prós e os contras, de viver “curando feridas” ao invés de preveni-las, de não analisar todas as faces de uma questão,... Até parece que a vida é um caderno de rascunhos sempre a disposição de ser passado a limpo. É meus caros, mas sabemos que não é bem assim! A história está aí bem abaixo do nariz para dar exemplos e repetir o quanto for necessário às duras lições.
Em pleno sábado de euforia pela redução do IPI e as concessionárias de veículos esbanjando sorrisos, não consegui conter meus pensamentos nada esfuziantes. Uma cascata de fatos e repercussões, embora escondidinha por detrás das manchetes entusiasmadas, existe real e incisiva; afinal, pagamos o ônus de uma conta contraída há tempos.
O ser humano gosta da perfeição porque ela lhe coloca exatamente na sua zona de conforto favorita, ou seja, tudo perfeito implica em não ser preciso se preocupar com erros e/ ou problemas. Apostando sempre na perfeição a humanidade também aproveita para se gabar da sua racionalidade, como se essa fosse uma garantia perfeita. E de perfeição em perfeição, por volta do século XIII à sociedade delineia os primeiros passos do modelo econômico e social denominado capitalismo. Amado por uns, odiado por outros, o fato é que a sociedade desde então caminha distante de equacionar seus problemas econômicos e sociais através de um modelo que de fato satisfaça suas reais demandas. Nem o capitalismo, nem o socialismo, nem outras propostas discutidas conseguiram até o momento atingir a tão sonhada perfeição e o que vemos estampando os meios de comunicação preocupa e nos faz realmente pensar. Para a alegria e satisfação de uns poucos na acumulação de bens e riquezas são precisos milhares para tornar tudo possível.
Mais de sete bilhões de habitantes no planeta Terra. É gente que não acaba mais e que precisa de alimento, de moradia, de educação, de saneamento básico, de tratamento médico e odontológico, de segurança, de lazer, de cultura, de... de... de... e tudo isso precisa de recursos financeiros. O sistema econômico criado lá no fim da idade média nos apresentou um universo de possibilidades em ser e estar, mas não se preocupou em dizer que de fato “para tudo tem um preço”. Sim! Não só um preço monetário, mas um preço socioambiental.  É preciso consciência para consumir, pois o consumo é uma arma perigosa; exaure os recursos naturais, produz o descarte maciço do supérfluo residual, promove a inflação na medida em que desequilibra a balança das relações econômicas...  
A vida desde então, se atrelou a necessidade fundamental do trabalho que provenha meios para sua sobrevivência; e ao longo dos séculos essa sobrevivência, ou esse estado de vida, agregou mais e mais valores dependentes do dinheiro. As necessidades, os sonhos, as expectativas, os comportamentos, as prioridades e as próprias relações sociais passaram a ser demarcadas pela disponibilidade de recursos financeiros pelos indivíduos. Infelizmente, passamos sim a ser pesados, medidos e julgados pelo o que o nosso poder aquisitivo venha a aparentar (ainda que as aparências possam enganar!).
Dentre tantos ícones de “afirmação” social, o veiculo automotivo é um grande representante. Em parte pela fragilidade do sistema de mobilidade urbana, também fomentado pelas insígnias do progresso e do desenvolvimento econômico e social, que negligenciou o pensamento coletivo para o livre trânsito da sociedade em nome do transporte individual, levando ao caos os médios e grandes centros. Em parte por ser um elemento palpável de identificação do status social; posto que, possuir um veiculo implica necessariamente em ter condições econômicas para tal (impostos, combustível, manutenção). Então, se equilibrando entre os dois lados dessa moeda, a frota de veículos no país só faz crescer; inclusive, os problemas.
Por mais que a engenharia de tráfego nacional se desdobre em análises e estudos, a conta não fecha! Se todos os veículos que hoje se encontram nas lojas de usados, nas concessionárias, nos pátios de veículos apreendidos e nos pátios das montadoras estivessem em circulação não haveria mais espaço para todos e o fluxo do trânsito não escoaria para lugar nenhum. Os atuais congestionamentos diários já exemplificam muito bem esse fenômeno; seja no transporte público ou no privado, as pessoas cada dia mais não conseguem cumprir seus horários e compromissos em razão do tempo que perdem presas no trânsito. O veiculo não mais significa o passaporte para a tranquilidade e a satisfação de ir e vir no tempo de sua escolha!
Enquanto o sistema econômico vigente sustenta a necessidade do consumo de veículos para a economia do país e consequente manutenção de empregos e de renda dos trabalhadores, por outro lado, uma lista de contras emerge consistente. Além do caos no tráfego, pode-se listar o aumento no número de acidentes, nos investimentos sociais quanto à aposentadoria por invalidez e outros benefícios, no estresse de motoristas e passageiros que ocasiona prejuízos de ordem física e psicossocial, na perda de mão de obra economicamente ativa, no consumo de combustível fóssil, na expansão das vias de rodagem com prejuízos significativos ao meio ambiente, enfim... chegou a conta do progresso!
O que era sinônimo de perfeição virou tormenta sem solução aparente! Enquanto por aqui se abaixa o IPI dos veículos, na Europa as mentes fervilham por uma solução que desative a crise Grega e de outros países altamente endividados pelos emaranhados imprevidentes da economia; mas, no fim das contas, o globo terrestre está literalmente, todo, no mesmo barco. Se uns mais e outros menos, no produto final a economia se pauta na mesma cartilha, com todos os seus senões e contratempos. A lição que fica (se podemos dizer assim) é que chega de perfeição; a hora é de lidar com os problemas de frente, cientes das dificuldades, da necessidade de ser flexível e realista, de sonhar dentro de limites palpáveis e exequíveis, de consumir com consciência e prudência... de romper com todos os modelos e reinventar o que possa garantir efetivamente a sobrevivência dessa civilização.

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