sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Crônica do fim de semana!


O pensamento e a maçã

Por Alessandra Leles Rocha

De fato nem sempre quando se ganha um presente o ser humano sabe exatamente o que fazer com ele. Essa é uma verdade que se aplica muito bem ao maior de todos os presentes recebidos pela raça humana: o pensamento ou raciocínio reflexivo sobre a vida.
Da consciência do homem primata aos dias de hoje, algo dilapidou e interrompeu significativamente o desenvolvimento pleno do pensamento humano. Um sopro gélido e silencioso parece ter percorrido pelas mentes e deixado no fundo do inconsciente à mensagem de que pensar é algo sofrido, dolorido e inquietante; sendo assim, melhor não praticar essa “perigosa” ação.
Lentamente a humanidade vem abdicando de ter nas próprias mãos o domínio de seu ser. Não reza a prática médica que a um indivíduo só é determinada a morte quando seu cérebro não mais exibe nenhuma atividade e, portanto, não pode comandar mais nenhuma outra função do corpo humano? É! Somos regidos pela ação cerebral nos meandros mais concretos e abstratos que se possa imaginar! Ainda que nesse campo, muitas das determinações se deem involuntárias, outras são única e exclusivamente dependentes da nossa própria vontade e, porque não dizer, voluntariosa arte do pensar.
Pena, que tantos têm desperdiçado essa arte! Entre promover o raciocínio reflexivo, que nos conduz pela segurança do olhar ponderado e esmiuçante do prisma cotidiano, andam se perdendo na indigesta alienação, que imobiliza e entorpece os sentidos, causando a proliferação de doenças corpóreas como se quisesse extravasar tudo àquilo que tenta a todo modo manter distante e esquecido. Entre postar-se diante da vida ou abrigar-se na superficialidade de uma verdade construída sob a óptica individual, a segunda opção tem conseguido arrebanhar um número mais expressivo de simpatizantes.  Entretanto, como quem lança toda a sujeira sob o tapete para não ter que limpá-la e mais dia menos dia ela ressurge gloriosa por entre as bordas, a sociedade dorme e amanhece sob os rumores da sua “cegueira”: atos bárbaros e violência explícita, desigualdades em todos os níveis e espaços geográficos, distorções éticas e morais. E em meio ao caos resmungam, clamam; mas, estão tão perdidos na dormência de seus pensamentos que não sabem como, quando e nem por que precisam se posicionar.
Claro que a situação se agrava consistentemente com o apoio incondicional e irrestrito daqueles que se beneficiam com o torpor do pensamento coletivo. O admirável rebanho de manipulação social não impõe resistência aos desvarios de outros cuja aspiração também não se traduz em algo que se possa qualificar nos padrões de qualidade do pensamento humano. O que significa o poder para quem não tem a devida dimensão do que ele de fato significa? O que significa a riqueza se não se tem sabedoria e conhecimento suficientes para aplicá-la com justiça e torná-la instrumento hábil para o progresso e o desenvolvimento social?
Na semana em que o mundo perde a genialidade de Steve Jobs 1, mais do que preces e agradecimentos a esse individuo que dignifica a qualidade de ser humano, é preciso pensar. Por detrás da revolução tecnológica que esse cidadão promoveu, houve a maior de todas as revoluções que se traduziu no pensamento humano.
A consciência plena sobre si mesmo deu a Steve Jobs a noção exata da importância do toque: tocar, nos conectar. Diante das infinitas possibilidades que nos chega através dos sentidos, o cérebro ávido de pensamento dispara a refletir e a contabilizar análises e resultados teóricos e práticos. Transcendendo a limitação do olhar altamente individualista, comum às origens humanas, Steve Jobs pode perceber e refletir sobre o que poderia atender e satisfazer a diversas necessidades do ser humano, lançado as arenas da vida contemporânea sem as ferramentas mais adequadas para lutar e sobreviver e oprimido pela escassez do tempo e o volume cada vez maior de tarefas e compromissos. Graças ao pensamento humano, Steve Jobs trouxe a contemporaneidade a uma nova era e fez entender que a simplicidade da vida, a vastidão do conhecimento está ao alcance do toque.
Tocar a tela de um iPad, iPod, iPhone, receber e transmitir informações, tudo está ao nosso alcance; mas, é preciso saber o que fazer com essa onda de conhecimentos, para não nos tornarmos ainda mais superficiais e alienados. Steve Jobs não fez universidade, mas nem por isso deixou de reverenciar na prática disciplinas como a Filosofia e a Sociologia; entregou-se de peito aberto a compreender a realidade, as causas elementares, os fundamentos dos valores humanos, o sentido da existência... Enfim, o comportamento humano em função do meio e os processos que interligam os indivíduos em associações, grupos e instituições. Da maçã de Newton 2 à maçã de Steve Jobs 3, o pensamento se consolida como o único meio de se alcançar o conhecimento e a evolução.
Como ele mesmo disse, “Seu tempo é limitado, então não percam tempo vivendo a vida de outro. Não sejam aprisionados pelo dogma – que é viver com os resultados do pensamento de outras pessoas. Não deixe o barulho da opinião dos outros abafar sua voz interior. E mais importante, tenha a coragem de seguir seu coração e sua intuição. Eles de alguma forma já sabem o que você realmente quer se tornar. Tudo o mais é secundário” 4.
  

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