sábado, 15 de outubro de 2011

15 de Outubro - Dia do Professor


Docência: vocação ou simplesmente uma escolha?

Por Alessandra Leles Rocha

Ainda que polêmica a temática dessa crônica, proponho o distanciamento imprescindível dos abismos extremos entre o idealismo e o radicalismo para a devida reflexão. De fácil compreensão não nos falta exemplos mundo afora quanto aos benefícios do exercício profissional, seja ele qual for, desempenhado pela certeza da escolha e o prazer indiscutível em vivenciar a concretização do trabalho; em suma, o que se conhece por vocação.
Fora de moda, talvez, mas o termo persiste latente no inconsciente de cada um de nós. Sim! Vivemos a era da pressa, da agitação, da concorrência, do consumo,... e de uma pouca, ou quem sabe, ausência plena de vontade e de paciência em estender o nosso bem estar, o nosso conhecimento sobre determinada área, aos que nos rodeiam. Antes mesmo de nos entendermos individualmente, abstrairmos nossos sentimentos, anseios, dúvidas e escolhas, caímos na armadilha sutil e viscosa de alcançarmos rapidamente o nosso “espaço ao sol” e, de preferência, laureado de sucesso concreto e abstrato.
E assim postergamos a nossa alegria, as nossas gotas de felicidade cotidiana. Mensuramos a nossa realização na medida do “vale quanto pesa” e, ao contrário das inúmeras expectativas depositadas, o resultado se distancia do esperado. Aos que alcançam o salário dos sonhos, o outro lado da moeda aponta a realização de trabalhos desgastantes, repletos de exigências e cobranças, competição desleal,... um ciclo contínuo e enfadonho que degrada lentamente o corpo e a alma desse fiel escravo. Aos que não alcançam o salário dos sonhos, apenas daquilo que lhes provenha à sobrevivência, a história apenas destaca com traços ainda mais marcantes os golpes sofridos pela insatisfação.
Ora, ora! Mas hão de dizer os leitores que poucos são os que não precisam labutar para viver e é romantismo banal pensar que todos podem realizar o trabalho “idealizado”! Sim, são poucos os afortunados a viver no rol da despreocupação; mas, quanto à realização do trabalho “ideal”, esta é uma questão de escolha e, sobretudo, de vocação. Por mais difícil e competitiva esteja à seara profissional, cabe ao indivíduo à franqueza da autocrítica para estabelecer a sua rota em busca do trabalho que melhor se adapta a sua personalidade, ao seu comportamento, e não apenas, venha somar ao quadro de experiências improdutivas.
Realizar um trabalho, exercer uma profissão, antes de tudo é assumir perante o circulo social o compromisso de servir; servir com disponibilidade, com alegria, com entusiasmo, embora nem todos os dias sejam de sol, a estrutura material não seja perfeita, os resultados não sigam o caminho da perfeição. É deixar se inflamar pela chama da superação, do desafio, para dar contorno e significado ao inexplicável sentimento de ter a vida materializada no senso útil.
Diante do caos em que se apresenta a educação em nosso país, em que vemos seus elementos constituintes caminharem dispersos, solitários e confusos; sem dúvida alguma, a escolha em se tornar PROFESSOR não parece fácil. Milhares de pesquisas tem discutido a formação docente em todas as suas instâncias, como se a demanda qualitativa e quantitativa desses profissionais estivesse a cargo simplesmente da ordenação acadêmica, ou de um diploma universitário. O que adiantam os parâmetros curriculares dos cursos de licenciatura, se no âmago esses indivíduos não tiverem a convicção mais pura e vibrante para enfrentar a realidade profissional estampada diariamente nos veículos de informação? Teorias baseadas em modelos distantes de atender aos anseios de um país altamente plural, que negligencia a logística necessária ao sucesso do sistema educacional, não podem dizer por si só que legitimam o exercício do professor.
Por que tão poucos persistem e o contingente parece se extinguir ano após ano? O mercado seleciona e reafirma o que os diplomas de licenciatura não conseguem sozinhos. Ficam aqueles que conseguem enxergar além dos olhos, movidos por uma aptidão nata e incontrolável. Não são abnegados, ou resignados! Clamam, lutam, sonham, almejam por dias melhores para realizar ainda mais; entendem que não se encontrariam, enquanto seres humanos, se não fosse nessa profissão. De uma forma ou de outra, os que desertam ou abdicam do oficio de ensinar aprendem a lição de olhar para dentro de si e ir à busca da sua verdadeira vocação. Talvez não se deparem com ela logo no principio; mas, se forem movidos pelo desejo sincero de encontrá-la, um dia ela despontará. Segundo Platão, “a coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento” 1.
Professores, ou não, o mundo é feito de flores e de espinhos; o importante é saber escolher! Podemos desempenhar milhares de funções, realizar obrar incríveis, coisas que jamais pensaríamos que fosse possível fazer; desde que, seja a nossa verdadeira vocação, o ímpeto maior a se aflorar dentro de nós.
  

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