Já dizia Aldous
Huxley, “O dinheiro não fala apenas, ele também impõe o silêncio”.
Por Alessandra
Leles Rocha
Em dezembro de 2022, eu escrevi o
texto O AVESSO DO MUNDO VIRTUAL, no qual eu compartilhava a seguinte
experiência no antigo Twitter: “em 08 de outubro fui pega de surpresa com a suspensão
permanente das minhas contas, por uma suposta violação das regras de
utilização. Acontece que não só faltaram maiores esclarecimentos a respeito
dessa violação, como as minhas manifestações recorrendo da suspensão não
foram sequer respondidas. Uma notificação padrão de análise era encaminhada;
mas, não passou disso. E diante dessa situação, eu decidi desativar
as contas; mas, fui impedida por uma mensagem alegando a suspensão das mesmas.
Vejam só que situação absurda!”.
Passados 4 anos, a situação se
repete da mesma forma, de maneira ainda mais surpreendente, dessa vez a plataforma
foi o Youtube. Acordei, essa manhã, e quando liguei o celular para me inteirar
das notícias do dia, descobri que a minha conta havia sido removida ou, segundo
eles, “o meu Canal foi removido”. Não houve quaisquer avisos prévios, quaisquer
menções de que eu estaria infringindo alguma regra ou política da plataforma. Foi
uma decisão sumária. Exatamente como da outra vez.
Acontece que eu não tenho um canal,
nunca gravei um vídeo sequer nessa ou em quaisquer outra plataforma, tratando de
qualquer assunto. Eu apenas acompanhava as publicações presentes naquele espaço.
Seguia assuntos diversos, entre importantes e supérfluos, sérios e engraçados. Algumas vezes, eu compartilhava assuntos
interessantes e importantes. Mas, na maioria do tempo, eu me dedicava a acompanhar
a dinâmica do dia.
Então, eu me perguntei: onde está
a liberdade de decidir, de escolher? Ela desapareceu. Como fumaça. Como um
passe de mágica. Diante da presença dos algoritmos, os quais, por alguma razão,
decidiram que as minhas escolhas, a minha decisão em torno da busca por
informações, estaria destoando gravemente do que eles consideram certo, do que
eles consideram relevante. Os algoritmos interferiram diretamente na construção
do meu conhecimento de mundo.
Exatamente, como aconteceu no
Brasil, durante a Primeira República ou República Velha, entre 1889 e 1930, com
o chamado voto de cabresto, um importante mecanismo utilizado para controlar o
comportamento eleitoral da população. Pois é, em pleno século XXI, o controle social
vem sendo exercido pelos algoritmos, através da modulação do comportamento e da
gestão da informação em larga escala, limitando o debate público e a exposição
ao contraditório. Esse uso de metadados permite, então, não apenas influenciar
processos democráticos, por exemplo, como estabelecer padrões de consumo e
comportamento.
Afinal de contas, os algoritmos
de redes sociais e buscadores são projetados para maximizar o engajamento, o
que promove as bolhas de filtro, nas quais a exposição ao contraditório é
eliminada, restringindo a liberdade intelectual e a capacidade de escolha. O que
significa que a falta de transparência sobre como essas decisões são tomadas
aliena o direito do cidadão de contestar ou compreender as lógicas que
restringem seu acesso a direitos e oportunidades no ambiente virtual.
Portanto, o controle social exercido por algoritmos na contemporaneidade, impacta diretamente a autonomia individual, na medida em que limita o acesso a perspectivas divergentes, reduzindo a base de informações necessárias para uma escolha livre e consciente. De modo que, muitas vezes, esse controle manifestado pelos algoritmos exerce uma ação direta sobre a manutenção ou o cancelamento de contas e/ou perfis. Como se eles atuassem na figura de juízes automatizados, promovendo uma censura silenciosa e impeditiva de recursos e de autodefesa, por parte do cidadão.
