quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Crônica de quarta-feira!!!


Tensão


 

Por Alessandra Leles Rocha


 

Tensão. Talvez seja esta a melhor palavra para definir o mundo neste momento. Aparentemente nenhuma novidade, se uma recapitulação breve dos últimos bilhões de anos da história do planeta azul for levada em consideração. Podemos até arriscar em dizer que “de uma explosão viemos e por outra retornaremos ao pó”. Ou considerar a verdade de que, por detrás da tensão há sempre uma intenção.
O fato é que o ar começa a tornar-se mais e mais irrespirável, quando a tensão se agiganta sobre nós, os pobres mortais. Tudo, porque no fundo temos a consciência de que para resolver essa questão havemos de contar com uma força motriz chamada ser humano. Mas essa força é complexa demais, ao ponto de render-se facilmente aos dualismos, ou antagonismos da sua própria essência.  E são bilhões desses seres espalhados pelo planeta em uma árdua tarefa de pautar-se pelo bom senso para alcançar um denominador comum que seja capaz de satisfazê-los harmônica e pacificamente.
Ora, a razão não é unânime na sua compreensão. Enxergar não significa reconhecer a mesma imagem. O exercício de nossas faculdades cognitivas e intelectuais não se molda sempre pelos mesmos princípios. Somos igualmente distintos na proporção de toda a nossa biologia. Identidades cujo processo de identificação é um mistério muito além dos meandros da explicação trivial. Daí, a tensão nos rodear, nos espreitar. O desconhecido habita dentro e fora de nós. 
O ser humano é o espelho da própria Natureza. Alterna-se ao sabor dos ventos, da fartura e da escassez, da Lua sob o comando das marés. Amigos ontem, inimigos amanhã; uniões providenciais, inclusive, na fragilidade da sua tecedura. Aparências; uma para cada hora do dia, para cada ocasião, para cada peça que se deseja mexer sobre o grande tabuleiro do mundo. Como o raio que prenuncia o estrondo aterrorizante do trovão, as palavras escondem na subjetividade de suas entrelinhas a força e o poder do discurso. No fim das contas, homem e Natureza mostram que nada é realmente o que parece ser.
Então, não há zona de conforto onde se possa repousar em segurança e paz. A fina camada de gelo sob nossos pés pode ruir a qualquer instante. Há muita tensão em todas as direções e sentidos. Cada um busca abrigo sob a verdade que melhor lhe cabe; é por isso, que se olhada bem de perto, a verdade nunca agrega com perfeição todos os seus retalhos, numa estética sem lá muita beleza.  E nesse processo de estranho e humano individualismo, onde os egos dos umbigos se elevam estratosfericamente, a tensão atinge o seu clímax.
O mundo é a própria sociedade e se esta está tão ensimesmada por suas verdades, as tensões são inevitáveis. Sinto como se fosse um vasto campo arenoso onde bilhões de cabeças estivessem enterradas, tal qual um bando de avestruzes; com a diferença de que ao contrário das aves, os humanos fazem isso por opção. Não, não é a dor, nem o sofrimento, nem a tragédia, nem quaisquer outros fatos terríveis que são realmente capazes de transformar os seres humanos em estopins de extermínio das tensões. Pode ser que para alguns sim; mas, na medida em que não abrangem a totalidade, o resultado final fica sempre a desejar, sempre um rastilho de tensão pairando no ar. 
Tensões de grande relevância ou de absurda irrelevância. Tensões arbitrárias. Tensões egoístas. Tensões repletas de ignorância. Tensões... Assim, entre todas elas tentamos viver. Em busca de uma felicidade (que nunca chega). De um amanhã regado por ousada novidade, que teima em povoar a imaginação. De uma fraternidade que não se restrinja a pertencer a esse ou aquele grupo, nem ser assim ou assado. De um bem-estar que sirva para todos e cada um.  Aí, frustrados quando o céu se pinta de negro com pequeninas luzes a brilhar, mais uma vez sem nada disso ter acontecido, a gente fecha os olhos de novo e sonha para que o amanhã, quem sabe distraído em ato falho, erre a profecia e faça tudo diferente.




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